Penápolis desde cedo manifestou certa preocupação com as coisas da arte. Merece mesmo um estudo mais aprofundado sobre o assunto. É certo que tivemos como professor de música e orfeão, o ilustre e competente Vicente Aricó Junior, que editou, inclusive, livros com partituras, destinados ao canto coral.
Anteriormente houve Mme. Camila Tomachinska, excelente professora e pianista, que, inclusive, foi regente do coral da Igreja Matriz, isto para citar o lado mais "erutido" da música praticada na época.
O cinema era mudo. O primeiro cinema de Penápolis era popularmente conhecido por Cinema do Caetano, e a delícia da moçada da época era acompanhar o seriado (hoje as chamadas séries) "Stanley na Afríca", além do Carlitos (Charlie Chaplin), e aventuras.
Para quebrar o silêncio da projeção havia um pequeno grupo de músicos tocando músicas de sucesso. Valsas, polcas, maxixes, tangos, fox-trotes, e outros rítmos populares. Não havia a preocupação da música acompanhar o clima da fita exibida.
Mais tarde apareceu o Jazz Sabino que pontificou na cidade por vários anos. E mesmo depois vieram vários outros conjuntos a serem comentados mais tarde.
Aos poucos foram aparecendo grupos informais dedicados exclusivamente à música popular. Alguns voltados para as serenatas. Em tempos que o rádio se afirmava como o grande meio de comunicação, a música ao vivo era a única manifestação que um apaixonado contava para exprimir seus arrebatados sentimentos; e a corporificação de tal estado de ânimo era a serenata, um punhado de canções cantadas à janela da moçoila, na madrugada, às vezes correspondidas com rápido movimento de janela, a desafiar o rigor dos costumes, e, de bom tom, deixar na veneziana um botão ou uma rosa.
O envoltório fundamental dos entrecantos
era o silêncio. Chegar no muito quieto e sair no muito mudo. Até porque os pais eram no estilo da peça de Gláucio Gil: Toda donzela tinha um pai que era uma fera, e de todo desejável não acordar o urso que dormia dentro de cada um deles.
Sylvio Macedo foi personagem afamado na cidade. Funcionário da Farmácia Monteiro, então de propriedade de Juvêncio Monteiro. Além de Vereador(1948-1951), foi Presidente do E.C. Corinthians,com sede no prédio que fica em frente do Banco do Brasil. O antigo tinha um encanto especial, que o tijolão atual só faz por vivificar a saudade.
Dr. Enio Soliani, por vinte e tantos anos, foi Presidente do Conselho Deliberativo do mesmo clube;aí explicada a amizade entre os dois.
Jovens, tinham lá o seu grupo de "boêmia", onde participavam Américo Avian, Fulgêncio Avian, João Leite, e outros músicos, destacando-se o JABURU, violonista considerado no grupo.
O ensaio, feito antes da sessão musical, tinha por lugar o Bar Oriente (não estou muito certo da veracidade do local, mas assim recordo o que me contaram), onde junto às cantorias, se consumiam várias "bebederias".
Madrugada a dentro lá iam os tocadores, cantadores e alguns "sapos de fora" que gostavam de acompanhar o ritual noitero.
Determinada noite Sylvio Macedo resolveu homenagear suas sobrinhas, que moravam na hoje Ramalho Franco, em frente à Praça Dr. Carlos Sampaio Filho, onde funciona agora uma cooperativa de crédito.
Durante o percurso do bar até o local da homenagem musical, Sylvio o tempo todo acenava para todos, exigindo o máximo silêncio. O som seria o mágico a tirar as donzelas de suas entregas aos braços de Morfeu - o Deus do Sono. E ele, o som, límpido, leve, malemolente, envolvedor, esvoaçante, a única manifestação de vida humana no local premiado.
Todos chegaram, sob a escolta de Sylvio Macedo, no silêncio que o protocolo reclamava. Com todo o cuidado abriram o portão de entrada, e, pé-ante-pé, se postaram junto à janela das belas adormecidas, que ficava de frente para a rua.
No momento absoluto do primeiro acorde, ao ferir as cordas do violão, Jaburu se explodiu num peido que ecoou até o campanário da matriz.
Com expressão soturna, aparvalhada, patética, onde se juntavam raiva, estupor, desalento - seu mundo aos escombros por culpa de um único amaldiçoado, desmoralizante e estrondoso vento - não suportando o ultraje que a ele, sozinho como Jó, vitimara, já então destampava aos gritos:
- Minha serenata... A minha serenata... A minha singela serenata... Acabaram com minha serenata... O que fizeram na minha serenata?
Enio Soliani, ante o desespero doído do amigo, solidário no trágico do instante, filosofando, deu sua resposta:
- Sylvio, o que posso dizer, sinceramente, é... que cagaram na sua serenata.
O ensaio, feito antes da sessão musical, tinha por lugar o Bar Oriente (não estou muito certo da veracidade do local, mas assim recordo o que me contaram), onde junto às cantorias, se consumiam várias "bebederias".
Madrugada a dentro lá iam os tocadores, cantadores e alguns "sapos de fora" que gostavam de acompanhar o ritual noitero.
Determinada noite Sylvio Macedo resolveu homenagear suas sobrinhas, que moravam na hoje Ramalho Franco, em frente à Praça Dr. Carlos Sampaio Filho, onde funciona agora uma cooperativa de crédito.
Durante o percurso do bar até o local da homenagem musical, Sylvio o tempo todo acenava para todos, exigindo o máximo silêncio. O som seria o mágico a tirar as donzelas de suas entregas aos braços de Morfeu - o Deus do Sono. E ele, o som, límpido, leve, malemolente, envolvedor, esvoaçante, a única manifestação de vida humana no local premiado.
Todos chegaram, sob a escolta de Sylvio Macedo, no silêncio que o protocolo reclamava. Com todo o cuidado abriram o portão de entrada, e, pé-ante-pé, se postaram junto à janela das belas adormecidas, que ficava de frente para a rua.
No momento absoluto do primeiro acorde, ao ferir as cordas do violão, Jaburu se explodiu num peido que ecoou até o campanário da matriz.
Com expressão soturna, aparvalhada, patética, onde se juntavam raiva, estupor, desalento - seu mundo aos escombros por culpa de um único amaldiçoado, desmoralizante e estrondoso vento - não suportando o ultraje que a ele, sozinho como Jó, vitimara, já então destampava aos gritos:
- Minha serenata... A minha serenata... A minha singela serenata... Acabaram com minha serenata... O que fizeram na minha serenata?
Enio Soliani, ante o desespero doído do amigo, solidário no trágico do instante, filosofando, deu sua resposta:
- Sylvio, o que posso dizer, sinceramente, é... que cagaram na sua serenata.