quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SYLVIO MACEDO, ENIO SOLIANI, JABURU E OUTROS BARDOS DE MARIA CHICA

               Penápolis desde cedo manifestou certa preocupação com as coisas da arte. Merece mesmo um estudo mais aprofundado sobre o assunto. É certo que tivemos como professor de música e orfeão, o ilustre e competente Vicente Aricó Junior, que editou, inclusive, livros com partituras, destinados ao canto coral. 
                                          Anteriormente  houve Mme. Camila Tomachinska, excelente professora e pianista, que, inclusive, foi regente do coral da Igreja Matriz, isto para citar o lado mais "erutido" da música praticada na época.
                                              O cinema era mudo. O primeiro cinema de Penápolis era popularmente conhecido por Cinema do Caetano, e a delícia da moçada da época era acompanhar o seriado (hoje  as chamadas séries) "Stanley na Afríca", além do Carlitos (Charlie Chaplin), e aventuras.
                                            Para quebrar o silêncio da projeção havia um pequeno grupo de músicos tocando  músicas de sucesso. Valsas, polcas, maxixes, tangos, fox-trotes, e outros rítmos populares. Não havia a preocupação da música acompanhar o clima da fita exibida.
                                          Mais tarde apareceu o Jazz Sabino que pontificou na cidade por vários anos. E mesmo depois vieram vários outros conjuntos a serem comentados mais tarde.
                                          Aos poucos foram aparecendo grupos informais dedicados exclusivamente à música popular. Alguns voltados para as serenatas. Em tempos que o rádio se afirmava como o grande meio de comunicação, a música ao vivo era a única manifestação que um apaixonado contava para exprimir seus arrebatados sentimentos; e a corporificação de tal estado de ânimo era a serenata, um punhado de canções cantadas à janela da moçoila, na madrugada, às vezes correspondidas com rápido movimento de janela, a desafiar o rigor dos costumes, e, de bom tom,  deixar na veneziana um botão ou uma rosa.
                                    O envoltório fundamental  dos entrecantos
era o silêncio. Chegar no muito quieto e sair no muito mudo. Até porque os pais eram no estilo da peça de Gláucio Gil: Toda donzela tinha um pai que era uma fera, e de todo desejável não acordar o urso que dormia dentro de cada um deles. 
                                    Sylvio Macedo foi personagem afamado na cidade. Funcionário da Farmácia Monteiro, então de propriedade de Juvêncio Monteiro. Além de Vereador(1948-1951),  foi Presidente do E.C. Corinthians,com sede no prédio que fica em frente do Banco do Brasil. O antigo tinha um encanto especial, que o tijolão atual só faz por vivificar a saudade.
                                         Dr. Enio Soliani, por  vinte e tantos anos, foi  Presidente do Conselho Deliberativo do mesmo clube;aí explicada a amizade entre os dois.
     
                                          Jovens, tinham lá o seu grupo de "boêmia", onde participavam Américo Avian, Fulgêncio Avian, João Leite, e outros músicos, destacando-se o JABURU, violonista  considerado no grupo. 
                                  O ensaio, feito antes da sessão musical, tinha por lugar o Bar Oriente (não estou muito certo da veracidade do local, mas assim recordo o que me contaram), onde junto às  cantorias, se consumiam várias "bebederias".
                                    Madrugada a dentro lá iam os tocadores, cantadores e alguns "sapos de fora" que gostavam de acompanhar o ritual noitero.
                                        Determinada noite Sylvio Macedo resolveu homenagear suas sobrinhas, que moravam na hoje Ramalho Franco, em frente à Praça Dr. Carlos Sampaio Filho, onde funciona agora uma cooperativa de crédito.
                                            Durante o percurso do bar até o local da homenagem musical, Sylvio o tempo todo acenava para todos, exigindo o máximo silêncio. O som seria o mágico a tirar as donzelas de suas entregas aos braços de Morfeu - o Deus do Sono. E ele, o som, límpido, leve, malemolente, envolvedor, esvoaçante, a  única manifestação de vida humana no local premiado.
                                            Todos chegaram, sob a escolta de Sylvio Macedo, no silêncio que o protocolo reclamava. Com todo o cuidado abriram o portão de entrada, e, pé-ante-pé, se postaram  junto à janela das belas adormecidas, que ficava de frente para a rua.
                                             No momento absoluto do primeiro acorde, ao ferir as cordas do violão, Jaburu se explodiu num peido que ecoou até o campanário da matriz.
                                                    Com  expressão soturna, aparvalhada, patética, onde se juntavam raiva, estupor, desalento - seu mundo aos escombros por culpa de um único amaldiçoado, desmoralizante e estrondoso vento - não suportando o ultraje que a ele,  sozinho como Jó,  vitimara, já então destampava aos gritos:
                     - Minha serenata... A minha serenata... A minha singela serenata... Acabaram com minha serenata... O que fizeram na minha serenata?
                             Enio Soliani, ante o desespero doído do amigo, solidário no trágico  do instante, filosofando, deu sua resposta:
                                 - Sylvio, o que posso dizer, sinceramente, é... que cagaram na sua serenata.
                                           





                                                  

terça-feira, 15 de novembro de 2011

DE ILUMINADOS, IDIOTAS E JUMENTOS


                         Tenho contado alguns fatos sobre pessoas de nossa passada Penápolis. Bem sopesado (desculpem o palavrão) imagino não passar de idiotice, pois não tendo as pessoas mais tempo nem de cuidar do presente, como alentar o interesse pelo passado?
                 Bom; há uma tese, um postulado, um princípio, uma média ponderada nada estatística, de noventa e oito por cento da população ser constituída de idiotas. Os romanos já diziam bem antes de Cristo que "numeros stultorum infinitus est", que em português é mais ou menos "o número de estúpidos é infinito".
                 Como tratei de me incluir nos restantes dois por cento que não o são, comecei a selecionar as pessoas desse exclusivo grupo principal. Aí a conta deu de não fechar. Cansei de acrescer gente entre os  privilegiados e cada instante chegando mais.
                      Bem. Se os dois por cento engordaram muito, o enunciado pecara pela premissa. Persistindo a sua correção, haverá muito idiota festando em terreiro alheio, folgado como pinto molhado, se intromentendo no semi-sacro e muito limitado  círculo dos ungidos com o bafejo da inteligência.
                         Recordei uma crônica genial do Otto Lara Resende sobre a jumentalidade humana. O padre Antonio Vieira, xará do grande Vieira português, tinha em quase veneração o jumento, a quem creditou parte fundamental no desenvolvimento do Brasil colônia, principalmente do norte do País. 
                          Na generalidade, o religioso convidava a cada um assumir sua própria jumentalidade, quando abandonada a burrice, eis que  a primeira qualidade, adquirida ao depois de vencido o estágio da burrice,  é deveras indicada para combater, dentre outros males, o da soberba -  tal qual o inchar como a rã da fábula de Esopo, conselho de D. Quixote a Sancho Pança, quando este foi elevado a governador de uma ilha.
                            Voltando aos diminúculos grupo de iluminados a cobrir o orbe,  senti que a contagem, ou é muito restritiva, ou há muita mão de gato puxando a brasa para a sua sardinha. 
                             No que decidi mesmo sem convite inscrever-me na honorável ordem da santa jumentalidade (criada pelo padre Antonio Vieira). 
                             Quanto mais não seja, para não esquecer o quanto somos devedores daqueles irmãos que nos serviram  de monta, de exemplo, de resistência, de garra, de obstinação.
                              Assim, continuarei a lançar palavras ao vento.   
                 Simplesmente "parce qu'il faut" exercitar minha jumentalidade.

sábado, 12 de novembro de 2011

DA ESPANTOSA PENHORA

          Novamente Dr. Felipe de Freitas. Do jeito que me veio repasso. Houve, dizem os que me contaram, um magistrado negro na Comarca de Penápolis. Que não fosse afrodescendente na totalidade teria,como o FHC, algo mais que o pé na senzala.
           Dr. Enio Soliani disse que vez por outra o chamado espírito de porco incorporava no Dr. Felipe produzindo efeitos inusitados, quase  catastróficos.
               Filipe de Freitas e o juiz, sabe-se lá porque, viviam às turras, tratamento respeitoso , entredentes porém.
             Deu-se ir ao seu  escritório um pobre diabo com uma questão muito simples. Não conseguira pagar determinada conta e o credor moveu a cobrança judicial do devido.
              Dr. Filipe ouviu a desgraceira do visitante lembrando-o que para remediar a situação  era preciso dar uma garantia para o juiz, um bem, alguma coisa com algum valor, de modo a se defender na demanda.
                O devedor residente no final da Rua Antonio Define, Bairro da Aparecida, tinha uma pequena chácara, com umas tantas criações sem nenhum valor palpável.
                   - Dotor Filipe, sô pobre e num tenho nada prá oferecê.
                   - Mas nadinha de nada...leitões, cabras, vaca de leite, nenhuma criação?
          - Dotor se eu dé quarqué bichinho, os bacuri vão passá fome. Num dá mesmo.   
                       - Pense direito homem, não tem nada mesmo? 
          O devedor olhou para os lados, para cima, em busca de um auxílio do além, quando, com o rosto iluminado, disse quase solene:
          - Eu tenho! Eu tenho um    BODE!!!!!
          O brilho dos olhos mudou de endereço. Filipe de Freitas aproximou-se até mais próximo do "cliente" e indagou:
          - A cor...que cor tem o bode?
          - Preto, seu Dotor.
          - Serve. E como serve. Você está a salvo. Já temos a penhora de que necessitamos. Espere que no dia certo eu te avisarei para você levar a mercadoria até o fórum.
          Dr. Felipe de Freitas adorava construir trovas, estrofes breves, geralmente na forma de quadras; nas suas o espírito era predominantemente satírico. 
            Alguns dias passados,  Dr. Felipe desceu à livraria do T.O.Castilho de Almeida, comprou uma folha de cartolina, nela escreveu    alguma coisa e foi procurar o devedor-executado. Lá chegando,  foi até o bode, e com um barbante grosso, pendurou  a cartolina e disse que ao cidadão que fosse até o forum, levando o bode, e se apresentasse ao oficial de justiça, que faria o papel da penhora e mandaria ambos - devedor e bode - de volta para casa.
                 Assim feito, diz a lenda que  o José Ortiz, oficial de justiça encarregado de vistoriar o bem ofertado e lavrar o docu mento da penhora, ao conferir o conjunto da obra, teve um acesso de riso nervoso, e assim desfeito o susto, rancou a cartolina do pescoço do bode e lhe deu fim brevissimo, evitando a propagação pública da quadra que assim discorria:
       
         "Em processo há muito vício
         Mas outro mor não me acode
         O de ver dar-se à penhora
         Um bode para outro bode!
         A lenda informa que Dr Filipe de Freitas teria respondido a processo-crime por desacato à autoridade.