terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ENIO SOLIANI E PAULINHO TOSETO OU A ETÉREA E DIÁFANA CEIA






       Dr. Enio Soliani criou um  quarteto composto de um jurisconsulto que o próprio, dois canditatos ao bacharelato em direito e um mestre-escola. João Carlos Vilas Bôas, o Locão, Joel Pereira Gomes, os acadêmicos da Instituição Toledo de Ensino, e Paulo Roberto Toseto, o Paulinho,  mestre-escola.
Paulinho Toseto materializava a constância certeira e infalível na área dos fundos. Toda santa noite lá estava para acompanhar Dr. Enio na programação de tv, e, claro, filar o cafezinho, a aguinha gelada , e vez em quando, uma comidinha preparada pela  cozinheira Nilce.
               Estando de manhã na redação do "Diário da Noroeste", do batalhador Irineu Sacocchi, onde eu fazia as vezes de redator, um belo dia atendo o telefone com um - alô?  Do outro lado ouvi: - Au!
                            - Quem ai por favor?
                            - Au! Au!
                            - Qual  a gracinha?
                           - Au! Au! Au!
                           - Olha, antes que eu me esqueça por que você não  vai tomar bem atrás do...seu...
                           - Calma. É o Enio. Desde manhã ando  muito estranho. Depois de levantado, barbeado, trocado, encontrei pronta a mesa com o café da manhã, que tomei  tranquilamente.  Quando pronto para sair, quase no portão , lembrei-me  do "até logo Nilce". Em vez do cumprimento saiu um Au!  Aí, ressabiado, desci ao escritório.
                              Passando pelo poste da força e luz  frente ao Carlos Stroppa, minha perna esquerda ergueu-se como que instintivamente. Com grande esforço, fiz voltar ao normal.  Caimbra não era. Descobri que de minha casa até o escritório, descendo em linha reta havia desafiadores sete postes enfileirados, ante os quais a perna sinistra teimosamente se ergueu feito reflexo condicionado. 
                               Liguei  para dizer  desses estranhos prenúncios. Quando você  atendeu, em vez do meu alô, saiu Au! E foram se repetindo os aus-aus até que pude me livrar das incômodas onomatopéias caninas. Porém temo pelos possíveis indiscretos e vexatórios  levantamentos involuntários das pernas, ora esquerda, na descida, ora direita, na subida, frente a  cada poste. Em resumo, a situação, grávida e cúfica, coloca-me  na iminência de consultar, não sei se  ventríloquo, ou  veterinário. Retorno logo que obter um diagnóstico mais preciso.

                              Enio Soliani, não sei se pelo gosto que tinha pela ópera, pela literatura universal, pelo teatro onde atuou como diretor quando estudante, quando queria criava momentos, cenas, circunstâncias, entreatos, com verossimilhança tal, que passavam por instantes graves, sérios, circunspectos, quando, em verdade, estava em curso uma deliciosa gozação a explodir no final. E a galera sempre levava a sério. O que para nós que mais o conhecíamos era puro deleite. 

                                  Chegando à noite no Dr. Enio, o  encontrei e a Paulinho começando uma conversa logo que me acomodei:
                                   - Paulinho, você passou bem o dia?
                                   - Passei doutor. Normal.
                             - Você não sentiu nenhuma vontade esquisita, estranha, inexplicável?
                                  - Eu... esquisita,  estranha.  Eehh!  doutor, qual é a sua? Não senti nem esquisita, nem estranha, nem vontade nenhuma. Eu heim?!
                                  - Não é o que está pensando senhor Pablo Dominguim. Não estou me referindo a comichões. É ... como eu diria... certa propensão...digamos... canina.
                                  - Doutor nem "comiçhãens" nem cães. O dia foi sossegado. Se mal pergunto, qual a  curiosidade do doutor?
                                  - Uma averiguação que venho promovendo sobre algumas atitudes muito relacionadas  ao mundo canino. E acabarei encontrando os dados que iluminarão o objeto da dita e   perquirida. 
                                    - Pô doutor. O senhor tá misterioso e gastante hoje heim? Perquirida... Perquirida.. não rima com persiguida?
 
  - Dominguim, perseguidas ou perquiridas, dizem os doutos,  algumas delas, ou mordem, ou assopram, ou cortam, e até quebram côcos. Mas esta é indagação menor, mais afeita a digressões em respeito aos Países Baixos, sem relação com minha atual averiguação. E sei que até amanhã  resolverei este enigma sherloquiano. Ou não me chamo  Enio Soliani.
                                 Noite seguinte Dr. Enio aguardou minha chegada e foi logo  interpelando Paulinho.
                                 - Pablo Dominguim: Sei que você não rejeita  uma farta comilança. Isto é certo?
                                 - Tão certo como é bom comer bem e, claro,  além de bem, bastante.
                              - Você Dominguim tem alguma preferência por pratos regionais, cozinha nacional ou internacional?
                                  - Doutor não sou lá muito exigente não. Um pernil assado no ponto, um filé à parmegiana ou à california feito pelo  Dito do  Bar Tabu. Uma feijoada cheia de tranqueira.Uma dobradinha completa. Taí umas comidas feitas prá  delicia das nossas vontades e lombrigas. Assim, assim né doutor ?!
                                 - Paulinho, você aprecia arroz carreteiro?
                              - Claro doutor,  Foi o que nós dois jantamos outro dia de noite. 
                                 - Anteontem.  E não bem um jantar. Foi quase uma ceia. Não foi senhor Dominguim?
                                 - Janta ou ceia qual a diferença?
                              - O primeiro, amigo Dominguim, geralmente é posto quando completo o anoitecer fazendo soberana a noite. A ceia é realizada quase sempre à desoras, quando o adiantado da hora instiga nossos vazios estomagos,  conduzindo, no mais das vezes, a excessos de ordem alimentar. Anteontem o senhor Pablo Dominguim fez o favor de manifestar seu estado famélico já bem passada a hora do jantar.
                               - E o senhor disse que também estava com fome e nós dois fomos na cozinha ver se tinha alguma coisa feita pela  Nilce. 
                               - E o senhor Dominguim foi inspecionar as panelas.
                              - E lá encontrei uma panelona quase cheia de arroz carreteiro, ainda morninha, chamando para ser papada. 
                              - E o senhor Paulinho me fez abrir uma Coca-Cola de dois litros para acompanhar o regabofe.
                              - E nós comemos, bebemos e arrepetimos duas vezes o arroz carreteiro da Nilce. Depois o doutor passou um café que tomamos e fomos dormir de pandulho cheio. Só faltou o licor para coroar né doutor?
                              - Sim, Senhor Paulo Toseto. Paulinho Toseto. Pablo Dominguim. Graças à sua desenfreada gula, nós dois comemos um mui diferenciado arroz carreteiro, o único de nossas vidas. E repetimos. 
                              - E tomamos quase a coca-cola inteira.Que tem de mais nisso?
                             - Há que,  Pablo Dominguim Pantagruel, a Nilce pela manhã me perguntou sobre o paradeiro da panela. Respondi que, orientado por  Dom Dominguim, haviamos esquentado e jantado o arroz carreteiro que ela havia preparado, e que o restinho que sobrara estava na panela em baixo da pia de lavar louça. E aí fiquei sabendo até onde sua desenfreada gula me levou, bem como a causa de meus desconexos impulsos de falas e andares de ontem.

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                              - Doutor Enio...arroz carreteiro... arroz carreteiro ...
                              - Nilce, eu senti que o arroz estava um pouco papinha. Um pouco molenga Deve ser a receita. Até o   tempero estava um pouco diferente.
                                - Doutor a panela que eu cozinhei não tinha arroz...carreteiro.
                                      - E o que, então, havia nela?
                                 - Doutor, o de sempre: arroz refogado, tempero, e uma lata de ração prá cachorro. Igualzinha aquela ali em cima do armário da cozinha.


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                              - Assim sendo  Dom Pablo  de Dominguim, vamos ao nascedouro dos fatos conferir a essência da iguaria que sua desmedida glutoneria nos impingiu.
                               Na cozinha, com a lata de ração canina à destra mão, Dr. Enio, em tom solene, declinou: 

                            Ingredientes: Ração bovina e suina, bofes bovinos, suinos e caprinos, Complexo B, Vitamina D, Vitamina E,  EXTRATO ETÉREO Q.S.P.
                             - E agora tenho mui certa a origem de minha prosa au-au e de minhas involuntárias e inevitáveis erguidas de pernas ao passar  por cada poste fincado no caminho do escritório.

                            - Graças à vossa façanha, Dom Plabo de Dominguim - Mestre-Escola natural dos campos de Maria Chica - diplomado em artes arteiras, gustativas, explosivas e quejandos - devo clamar aos céus que   meu mais profundo sentir, meu valoroso andar, meu escandido falar,  presa se tornaram de diáfano, ignoto e indefinível extrato etéreo canino  quase sacrilegamente consumido, por obra e graça da vossa tão soberba quanto portentosa  gula.
                                  E tal sucesso se deu tão somente por que Pança sois, sem Sancho serdes. 



                                             * Dr. Enio Soliani era grande admirador de Cervantes, em particular do "Dom Quixote de la Mancha" e por mais de vez se inspirou, ora em D. Quixote, ora em Sancho Pança, para as suas brincadeiras. As falas, em alguns pontos dos diálogos Enio/Paulinho buscam, sem pretensão alguma, imitar o estilo do escritor espanhol que Dr. Enio, com maestria, dele se utilizava.  Sorte nossa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DR BRÁULIO SAMMARCO E TIÃO FIGUEIREDO OU A CÍNICA BAIXEZA NO TRIBUNAL





                                Grande parte dos julgamentos nos chamados processos-crime é feita com a presença do juiz, do promotor de justiça, do advogado de defesa do réu e do escrevente judicial, que hoje digita as atas de cada uma dessas audiências.
                       Nos tempos do acontecido, as sessões de julgamento eram datilogradas em máquinas de escrever, equipamento que o computador inapelavelmente aposentou.
                      Na audiência, presentes o Juiz de Direito, o Promotor de Justiça, como advogado de defesa o Dr. Bráulio Sammarco, e como escrevente o veloz Sebastião Figueiredo, o querido e respeitado  Tião Figueiredo.
                    Aberta a audiência, depois de ouvidas duas testemunhas a favor do réu, passou-se a sessão para os debates , quando pela ordem,  a promotoria oralmente fazia suas alegações finais, sendo seguida pela defesa do acusado, findando com a sentença ditada pelo juiz.
                   Dr. Bráulio Sammarco, apesar de sua prodigiosa memória, tinha por hábito rascunhar tudo que fosse afeito ao seu trabalho. Um simples memorando, uma pequena carta que fosse, eram antecedidos de um rascunho, depois reproduzido na máquina de escrever, ou mesmo à mão.
                   Então, quando ia para as audiências com debates orais, levava datilografadas suas alegações e, dada a palavra para a defesa, Dr. Bráulio ditava para o escrevente o seu arrazoado, que seria posteriormente lido pelo Juiz, antes de sentenciar.
                  Chegada sua vez, Dr. Bráulio aproximou-se da mesa de  Tião Figueiredo e passou a ditar a sua fala, transcrita para o papel com habilidade  pelo esperto escrivão.
                   Na época o uso do latim forense era corriqueiro e Bráulio Sammarco, como o grande latinista que foi, dele fazia uso não por uso diletante de erudição, senão como recurso a tornar precisa a real dimensão de seu raciocínio. 
                  Foi assim que se utilizou da expressão "conditio sine qua non" para precisar que o ato precipitado da vítima foi essencial para a atitude reflexa do réu.
                   Findo seu ditado, Dr. Bráulio se pôs ligeiramente atrás de Tião, tirou os óculos e se aproximou conferindo rapidamente a transcrição de suas razões. 
                   Súbito, fixou seus olhos em linha reta direcionando-os para o infinito, como que puxando pela memória, e volvendo-se para o Tião Figueiredo, com a educação e modos que sempre o destacaram como cavalheiro, disse com delizadeza:
                 - Tião quer me parecer que ouve um pequeno engano na sua datilografia, pois não precisei  o significado de uma pequenina fala no   texto datilografado.
                - Dr. Bráulio, eu escrevo rápido, mas estou certo de que o que o senhor ditou está  no papel, sem tirar, nem por.
                - Tião, neste parágrafo, mostrou com o dedo indicador, eu pedi para você abrir aspas, ditei uma observação, e solicitei que  fechasse as aspas.
                - E fiz direitinho do jeito que o senhor pediu. Abri e fechei as aspas, escrevendo no meio o que o senhor ditou. Acho que não faltou nada.
                 - Tião, quando eu solicitei que abrisse aspas, pedi que você datilografasse "condítio sine qua non"
                 - Doutor Bráulio, mas é isto  que está escrito.Veja se não:
 
                 - "Condício cínico anão".  

             


   

domingo, 11 de dezembro de 2011

SALIM DA BAMBINA E SONHO, OU NÃO HÁ MAL QUE NÃO TENHA SEU REMÉDIO




                             Fauze Eid era conhecidíssimo na Maria Chica. O mesmo com Juvenal Rodrigues de Brito. Um e outro, porém, sob seus nomes, poucos conheceram ou conhecem. Basta que se diga, no lugar, Salim da Bambina e Sonho do Bar do Sonho, para ambos se tornem conhecidíssimos. 
                   Em determinada manhã encontrei-me ao acaso com o Sonho no interior da então Caixa Econômica Estadual que hoje é o Banco do Brasil S/A.
                    Saíamos juntos quando, na calçada,  vindo de encontro para entrar, avistamos o Salim. O Salim da Bambina chamava todo o mundo de Salim. Assim jamais correu o risco de chamar alguém pelo nome trocado. 
                   Paramos os três na beira da calçada e Salim foi logo perguntando ao Sonho:
                   - Como vai Salim ?
                  - Bem! E você Salim? respondeu Sonho com outra pergunta. 
                  - Bem também Salim.
                  - Por falar em bem você está  sentindo melhor com o tratamento? perguntou Sonho. 
                  - Um pouco melhor Salim Sonho. Devagar vai indo.
                 Intriguei-me ligeiramente com a conversa. Embora não tivesse nenhuma intimidade com o Salim, conhecia bastante o Dr. Bráulio Sammarco que era seu cunhado e a D. Rosinha, irmã de Salim e esposa do Dr. Bráulio. Nenhum dos dois nunca comentaram nada sobre o estado de saúde de Salim. Nem mesmo o Ivan Sammarco que era sobrinho e bem chegado ao tio. 
                    A entonação cerimoniosa que um e outro emprestavam às suas falas certificavam a existência de algo reservadíssimo.
                 - O seu médico falou alguma coisa sobre o tempo de tratamento? Afinal de contas o seu problema já vem de bem lá trás.
                - Sabe Sonho, eu estar fazendo tudo que o médico manda, cuidando direitinha de mim; mas doutor disse que, quem sabe, com  tempo Salim melhora.
                 - Então Salim acha que  recuperação tem chance?
                - Assim, assim, bem devagar, sem pressa e com a muito cuidado para não piorar.
                Envolto pelo clima da conversa, pela seriedade do que confabulavam, não tive nem coragem, nem atrevimento, de entrar  no assunto. Me corroia, entretanto, uma indagação atroz: que "malade" enfrentava o Salim?
                 - Salim, prá ser sincero com você, da última vez que nós se encontramos, sua cara parecia um pouco melhor, mas deve ser o sol que tá batendo nela, que tá deixando assim. Em todo o caso, eu estimo as melhoras. E não deixe do tratamento, dos remédios e de visitar o médico quando sentir alguma recaída querendo te derrubar.
                 - Claro que sim Salim Sonho, Salim vai cuidar muito, muito mesmo. Se não sara, melhora, melhora sim, bastante. Obrigado pela consolo. Salim  agora eu vai entrar na Banco.Té logo.
                  - Té logo Salim. Desejo que o seu tratamento continue bem e que você tenha sucesso lá na frente. 
                  - Té logo Sonho.
                  - Té logo Salim.
                  Com Salim já na agência, surpreso pela descoberta  de ser o Salim da Bambina  portador de uma doença, pelo jeito crônica, persistente, de controle sujeito a medicação perene, no clima do papo recém acabado perguntei:
                 - Sonho, essa doença do Salim... o estado dele é realmente preocupante? Olha, eu nunca ouvi dizer que o Salim tivesse uma gripe. Sempre está bem quando  vejo ele na Bambina. Agora fico sabendo dessa história toda. Cá entre nós: a família sabe, a mulher, o filho, os parentes?
                - Salim é muito reservado sobre  saúde. A única pessoa que ele fala dela é pra mim e assim mesmo pela nossa velha amizade de lá da Braúna.
               - Mas tem algum jeito que possa ser dado? A curto ou longo prazo, sei lá,  alguma coisa prá contornar a situação?
               - Bem... jeito, jeito, acho difícil, mas pra tudo tem remédio e pro Salim, quem sabe se seguir certo o tratamento e não desistir, pode ser que, ao menos, melhore.
               - Sonho, sem ser bisblioteiro, mas pela preocupação que agora estou com o Salim, você poderia, se puder, dizer que mal tanto persegue  o Salim?
               - Você guarda o segredo?
              - Claro, homem, diga logo qual a doença.
              Sonho, após uma olhadela em volta, colocou seu braço sobre meu ombro, aproximou-se de meu ouvido, e confiou, sussurrando,  a doença persistente e contínua de Salim:
              - Feiura brava!!!!
           
                

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TENENTE CARRIÇO OU A LEI COMO ELA É

                             
                                           Tenente Carriço, sim, o do Estádio Municipal que merecidamente leva o seu nome, andava às voltas com um problema. Não qualquer problema; era mais que um simples problema, quase, para ele, uma questão, ou até fosse o caso, uma demanda.
                           Depois de muito caramingolar chegou a uma decisão. Problema, questão ou demanda, teria de procurar um entendido.
                           Com tal propósito foi ter com o Dr. Filipe de Freitas. Expôs com calma e pormenorizadamente os fatos que, na sua avaliação, reclamavam uma atitude, ou atitudes, quem sabe não seria o caso de uma questão, ou, quem sabe, uma demanda, para que suas apreensões encontrassem uma resposta favorável. Este o termo exato. Objetivo. Fa-vo-rá-vel !
                           Dr. Felipe ficou por um bom tempo em total mudês. Pensando. Raciocinando. Ensimesmado. 
                            Levantou-se, foi à estante, desceu alguns livros, consultando atentamente cada um deles, até que fechou o último cartapácio (não é palavrão, garanto), balançando a cabeça de um lado para o outro, vagarosamente, a  formar sua convicção final sobre o caso. 
                           Então,  com toda a calma , discorreu:
                          - Tenente Carriço, temo dizer que, da maneira como colocou os fatos e a situação, não vejo uma alternativa jurídica que venha a lhe garantir um resultado fa vo rá vel.
                          - Dr Filipe, olhe todos os cantos, todos os lados, todos os jeitos, eu sei que tem uma saída pro dilema.
                          - Eu sinto muito Tenente, mas não tenho nem como lhe dizer que podemos arriscar um caminho da lei, que nos seja, como quer o senhor, favorável.
                         - Dr Filipe o advogado é o senhor, que muito respeito e estimo; o senhor é estudado nas leis e nas causas, e nos fóruns, mas vou insistir que tem um rumo sem erro para meu aperreamento. 
                         - Tenente Carriço. Com o mesmo respeito e estima que ao senhor devolvo, onde o Tenente esse rumo, e com base no que?
                         - Doutor Filipe: o senhor é muito estudado e sabido de leis, como acabei de dizer. Mas eu sei direitinho como é a lei. E por saber como é a lei, é que sei que a minha questão tem garantia de sair favorável.
                        - Pois bem Tenente Carriço; me mostre então como é a lei.
                       - Muito fácil Dr. Filipe. A lei é sempre assim: Ela tem em cima o ar-ti-go que prende e, logo abaixo  o pa-ra-GRÁ- fo que solta. Tem jeito, ou não tem?!!! Inté.
                      


                    
                              

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

CACÁ CALAZANS OU A BEM-AVENTURANÇA DA BRAHMA E O PURGATÓRIO PILOSO




                                                           IZIDORO CALAZANS DE MELLO, o CACÁ como era conhecido por todo mundo, foi e é extraordinária figura intelectual e humana, de merecido reconhecimento e memória.
                                            Cacá Calazans, apesar do sobrenome, não tinha grau de paretesco com o Rubens de Calazans, pai do Daltro, ambos  casamenteiros oficiais de Maria Chica.
                                           Tinha inteligência e memória privilegiadas. Erudito na arte da poesia, sabia de cor uma infinidade de gêneros poéticos, de várias origens, estilos, correntes, tendências e referências biográficas de seus autores preferidos.
                                           E uma qualidade que todos desejam mas a poucos a providência concede: rapidez de raciocínio e presença de espírito, criando da banalidade de um instante um fato novo, inesperado, novidadeiro, a transformar por completo o acontecimento
                                          Cacá sempre apreciou seus tragos, e conhecia em essência o que se chama por aí de bebidas finas. Tinha conhecimento de causa, e foi sempre apreciador de um bom whisky, particular que o Willian Geraissate para Cacá nunca descuidou. Isso faz parte de uma outra história que será oportunamente contada. 
                                            Mas apreciava, é claro, uma cerveja bem gelada, dela fazendo  sua "pièce de résistence" no andar dos dias.
                                       Fumante inveterado, usava piteiras, um filtro que, em teoria, impedia de o excesso de nicotina ir para os pulmões. Ele sabia que não; entretanto as usava até para que sua determinação em usá-las lograsse convencer a si e circundantes que a coisa funcionava.
                                      Míope, usava alentadas lentes, com armadura que se dizia tartaruga, estatura mais para o baixo que para o alto, portador de um tanquinho apropriado para o depósito das benfazejas brejas. 
                         O vestuário, ao estilo "social" (calças de linho, ou casemira, ou outro tecido "nobre"; camisas de cambraia de linho, ou outro tecido especial) chamava a atenção pelo estilo, sem parecer, nem pernóstico, nem "blasé". Sua figura expendia simplicidade e grandeza de caráter, o que o tornava querido por todos de sua convivência.
                                    O Cacá, durante muitos anos, foi vendedor (viajante) da General Eletric - a GE - que lhe forneceu um Jeep,  estampado com a sua marca registrada, para que fizesse ele suas andanças. 
                                   Apesar de nortista, Cacá era calorento. Então, o cabelo, melhor dizendo, o corte do cabelo, era bem rente ao couro cabeludo, um estilo chamado  corte "americano", ou "escovinha", muito próximo, ou idêntico, aos dos militares da ativa na época. 
                                  E por muitos anos o trinômio estampa, veículo e corte de cabelo identificavam, de longe, a presença de Cacá à volta.
                                 Em canicular tarde de verão, Cacá estaciona o Jeep na Rua Siqueira Campos - hoje Irmãos Chrisóstomo, bem em frente ao Bar Tabu, que até hoje lá permanece.
                                 Esbaforido, pede logo  uma Brahma, casco escuro,  estupidamente gelada, eis que tinha acabado de ser liberto de infamante cadeira, onde ficara sob o jugo de insensível fígaro que o aprisionara sob um avental de algodão cru, no interior do qual transudou até o  último poro do corpo, aguardando que cabelo  cortado e barba feita a navalha, se mostrassem frutos perfeitos colhidos da maestria de seu barbeiro. Enfim, de onde saira com o corte "escovinha" ou "americano", e as bochechas lisinhas  como bumbum de nenê.
                                Instalou-se preguiçosamente numa da mesas esperando o santo refrigério. Vindo de imediato. Com a cerveja, a acompanhá-la qual uma sombra, um conhecido de Cacá com uma garrafa na mão e copo noutra, esparramou-se -  o termo próximo do real - à mesa, a configurar a dura e cruel realidade: acabara de ganhar um emérito chato a pretexto de companhia.
                               Cacá sempre teve paciência de padre em toda e qualquer situação, e não seria um pentelho qualquer que haveria de furtar-lhe do prazer de uma Brahma na tempeatura reclamada. Passou a degustá-la entre a voluptuosidade que o contato do líquido propiciava às suas papilas gustativas, e o instante solene, silencioso, onde o abscondito do ser ascendia às culminâncias das primícias advindas do reino de Baco. Extase e glória. Cumplicidade e abandono totais à imperiosidade subjugadora da vontade ao prazer inominável, produzido pela alquimia das proporções mágicas de malte e lúpulo, que encorpavam o contato da língua com o pálato, a entretecer a sublimidade do instante. 
                                 Instante gozozo do qual foi rude e abruptamente ceifado por um quase berro do "amigo" de mesa.
                              - Cacááá...você cortou o cabelo. Tô vendo que você cortou o cabelo. Cê tá cheirando a lavanda de barbeiro...                             - Acabei de sair do barbeiro e,
                              - Isso não precisa falar que eu tô vendo e cheirando. Por falar em ver, ô Cacááá, por que você quase rapou o côco tudo? Tá parecendo carneiro tosquiado. Por que você raio os parta cortou assim, como campo de aviação de mosquito?
                           - Porque este é o corte que, porra, você, por falar em cabelo, já está quase careca de conhecer. É o escovinha, ou americano, ou qualquer dos dois que você escolher.
                          - Mas, Cacááá, mais, olha, o barbeiro num barberou não? Parece que tirou muito...acho que pode por tirou muito nisso.
                          - Ele fez do jeito que sempre faz e eu peço. Com o calor que faz,a mente fica mais arejada. É isso.
                         - É, mais ficou pouco. É que não tem um espelho aqui na mão, senão eu ia te mostrar que ele rapou quase tudo a sua cabeça. Olha, olha, ô Cacááá, mesmo prá escovinha,ói, o seu barbeiro, ah sim, o seu barbeiro perdeu a mão, você ficou quase pelado...e...então né...
                         Cacá, acertando  o óculos nariz acima,  bem à altura dos olhos, como sempre fazia antes de proferir suas máximas, fixou firmemente os olhos do chato e cravou:
                      -  Meu amigo, vou lhe dizer uma coisa que espero leve em consideração e serventia, não como falta de cortesia ou ofensa:

                    Se cabelo anda faltando, é na minha cabeça, não na sua,o que dispensa seu palavrório e preocupação. Ele crescerá de novo e de novo cortarei do jeito que eu me entenda cortar. Por fim ponha reparo no seguinte, fossem os cabelos tão importantes quanto a sua impertinência  , jamais nasceriam nas beirolas do cú!
                       Dois olhos arregalados, uma saída à francesa promovida pelo amigo, e Cacá voltou ao caminho do nirvana Brahmico, ao que parece o encontrando finalmente. Inté.
                                                   


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SYLVIO MACEDO, ENIO SOLIANI, JABURU E OUTROS BARDOS DE MARIA CHICA

               Penápolis desde cedo manifestou certa preocupação com as coisas da arte. Merece mesmo um estudo mais aprofundado sobre o assunto. É certo que tivemos como professor de música e orfeão, o ilustre e competente Vicente Aricó Junior, que editou, inclusive, livros com partituras, destinados ao canto coral. 
                                          Anteriormente  houve Mme. Camila Tomachinska, excelente professora e pianista, que, inclusive, foi regente do coral da Igreja Matriz, isto para citar o lado mais "erutido" da música praticada na época.
                                              O cinema era mudo. O primeiro cinema de Penápolis era popularmente conhecido por Cinema do Caetano, e a delícia da moçada da época era acompanhar o seriado (hoje  as chamadas séries) "Stanley na Afríca", além do Carlitos (Charlie Chaplin), e aventuras.
                                            Para quebrar o silêncio da projeção havia um pequeno grupo de músicos tocando  músicas de sucesso. Valsas, polcas, maxixes, tangos, fox-trotes, e outros rítmos populares. Não havia a preocupação da música acompanhar o clima da fita exibida.
                                          Mais tarde apareceu o Jazz Sabino que pontificou na cidade por vários anos. E mesmo depois vieram vários outros conjuntos a serem comentados mais tarde.
                                          Aos poucos foram aparecendo grupos informais dedicados exclusivamente à música popular. Alguns voltados para as serenatas. Em tempos que o rádio se afirmava como o grande meio de comunicação, a música ao vivo era a única manifestação que um apaixonado contava para exprimir seus arrebatados sentimentos; e a corporificação de tal estado de ânimo era a serenata, um punhado de canções cantadas à janela da moçoila, na madrugada, às vezes correspondidas com rápido movimento de janela, a desafiar o rigor dos costumes, e, de bom tom,  deixar na veneziana um botão ou uma rosa.
                                    O envoltório fundamental  dos entrecantos
era o silêncio. Chegar no muito quieto e sair no muito mudo. Até porque os pais eram no estilo da peça de Gláucio Gil: Toda donzela tinha um pai que era uma fera, e de todo desejável não acordar o urso que dormia dentro de cada um deles. 
                                    Sylvio Macedo foi personagem afamado na cidade. Funcionário da Farmácia Monteiro, então de propriedade de Juvêncio Monteiro. Além de Vereador(1948-1951),  foi Presidente do E.C. Corinthians,com sede no prédio que fica em frente do Banco do Brasil. O antigo tinha um encanto especial, que o tijolão atual só faz por vivificar a saudade.
                                         Dr. Enio Soliani, por  vinte e tantos anos, foi  Presidente do Conselho Deliberativo do mesmo clube;aí explicada a amizade entre os dois.
     
                                          Jovens, tinham lá o seu grupo de "boêmia", onde participavam Américo Avian, Fulgêncio Avian, João Leite, e outros músicos, destacando-se o JABURU, violonista  considerado no grupo. 
                                  O ensaio, feito antes da sessão musical, tinha por lugar o Bar Oriente (não estou muito certo da veracidade do local, mas assim recordo o que me contaram), onde junto às  cantorias, se consumiam várias "bebederias".
                                    Madrugada a dentro lá iam os tocadores, cantadores e alguns "sapos de fora" que gostavam de acompanhar o ritual noitero.
                                        Determinada noite Sylvio Macedo resolveu homenagear suas sobrinhas, que moravam na hoje Ramalho Franco, em frente à Praça Dr. Carlos Sampaio Filho, onde funciona agora uma cooperativa de crédito.
                                            Durante o percurso do bar até o local da homenagem musical, Sylvio o tempo todo acenava para todos, exigindo o máximo silêncio. O som seria o mágico a tirar as donzelas de suas entregas aos braços de Morfeu - o Deus do Sono. E ele, o som, límpido, leve, malemolente, envolvedor, esvoaçante, a  única manifestação de vida humana no local premiado.
                                            Todos chegaram, sob a escolta de Sylvio Macedo, no silêncio que o protocolo reclamava. Com todo o cuidado abriram o portão de entrada, e, pé-ante-pé, se postaram  junto à janela das belas adormecidas, que ficava de frente para a rua.
                                             No momento absoluto do primeiro acorde, ao ferir as cordas do violão, Jaburu se explodiu num peido que ecoou até o campanário da matriz.
                                                    Com  expressão soturna, aparvalhada, patética, onde se juntavam raiva, estupor, desalento - seu mundo aos escombros por culpa de um único amaldiçoado, desmoralizante e estrondoso vento - não suportando o ultraje que a ele,  sozinho como Jó,  vitimara, já então destampava aos gritos:
                     - Minha serenata... A minha serenata... A minha singela serenata... Acabaram com minha serenata... O que fizeram na minha serenata?
                             Enio Soliani, ante o desespero doído do amigo, solidário no trágico  do instante, filosofando, deu sua resposta:
                                 - Sylvio, o que posso dizer, sinceramente, é... que cagaram na sua serenata.
                                           





                                                  

terça-feira, 15 de novembro de 2011

DE ILUMINADOS, IDIOTAS E JUMENTOS


                         Tenho contado alguns fatos sobre pessoas de nossa passada Penápolis. Bem sopesado (desculpem o palavrão) imagino não passar de idiotice, pois não tendo as pessoas mais tempo nem de cuidar do presente, como alentar o interesse pelo passado?
                 Bom; há uma tese, um postulado, um princípio, uma média ponderada nada estatística, de noventa e oito por cento da população ser constituída de idiotas. Os romanos já diziam bem antes de Cristo que "numeros stultorum infinitus est", que em português é mais ou menos "o número de estúpidos é infinito".
                 Como tratei de me incluir nos restantes dois por cento que não o são, comecei a selecionar as pessoas desse exclusivo grupo principal. Aí a conta deu de não fechar. Cansei de acrescer gente entre os  privilegiados e cada instante chegando mais.
                      Bem. Se os dois por cento engordaram muito, o enunciado pecara pela premissa. Persistindo a sua correção, haverá muito idiota festando em terreiro alheio, folgado como pinto molhado, se intromentendo no semi-sacro e muito limitado  círculo dos ungidos com o bafejo da inteligência.
                         Recordei uma crônica genial do Otto Lara Resende sobre a jumentalidade humana. O padre Antonio Vieira, xará do grande Vieira português, tinha em quase veneração o jumento, a quem creditou parte fundamental no desenvolvimento do Brasil colônia, principalmente do norte do País. 
                          Na generalidade, o religioso convidava a cada um assumir sua própria jumentalidade, quando abandonada a burrice, eis que  a primeira qualidade, adquirida ao depois de vencido o estágio da burrice,  é deveras indicada para combater, dentre outros males, o da soberba -  tal qual o inchar como a rã da fábula de Esopo, conselho de D. Quixote a Sancho Pança, quando este foi elevado a governador de uma ilha.
                            Voltando aos diminúculos grupo de iluminados a cobrir o orbe,  senti que a contagem, ou é muito restritiva, ou há muita mão de gato puxando a brasa para a sua sardinha. 
                             No que decidi mesmo sem convite inscrever-me na honorável ordem da santa jumentalidade (criada pelo padre Antonio Vieira). 
                             Quanto mais não seja, para não esquecer o quanto somos devedores daqueles irmãos que nos serviram  de monta, de exemplo, de resistência, de garra, de obstinação.
                              Assim, continuarei a lançar palavras ao vento.   
                 Simplesmente "parce qu'il faut" exercitar minha jumentalidade.

sábado, 12 de novembro de 2011

DA ESPANTOSA PENHORA

          Novamente Dr. Felipe de Freitas. Do jeito que me veio repasso. Houve, dizem os que me contaram, um magistrado negro na Comarca de Penápolis. Que não fosse afrodescendente na totalidade teria,como o FHC, algo mais que o pé na senzala.
           Dr. Enio Soliani disse que vez por outra o chamado espírito de porco incorporava no Dr. Felipe produzindo efeitos inusitados, quase  catastróficos.
               Filipe de Freitas e o juiz, sabe-se lá porque, viviam às turras, tratamento respeitoso , entredentes porém.
             Deu-se ir ao seu  escritório um pobre diabo com uma questão muito simples. Não conseguira pagar determinada conta e o credor moveu a cobrança judicial do devido.
              Dr. Filipe ouviu a desgraceira do visitante lembrando-o que para remediar a situação  era preciso dar uma garantia para o juiz, um bem, alguma coisa com algum valor, de modo a se defender na demanda.
                O devedor residente no final da Rua Antonio Define, Bairro da Aparecida, tinha uma pequena chácara, com umas tantas criações sem nenhum valor palpável.
                   - Dotor Filipe, sô pobre e num tenho nada prá oferecê.
                   - Mas nadinha de nada...leitões, cabras, vaca de leite, nenhuma criação?
          - Dotor se eu dé quarqué bichinho, os bacuri vão passá fome. Num dá mesmo.   
                       - Pense direito homem, não tem nada mesmo? 
          O devedor olhou para os lados, para cima, em busca de um auxílio do além, quando, com o rosto iluminado, disse quase solene:
          - Eu tenho! Eu tenho um    BODE!!!!!
          O brilho dos olhos mudou de endereço. Filipe de Freitas aproximou-se até mais próximo do "cliente" e indagou:
          - A cor...que cor tem o bode?
          - Preto, seu Dotor.
          - Serve. E como serve. Você está a salvo. Já temos a penhora de que necessitamos. Espere que no dia certo eu te avisarei para você levar a mercadoria até o fórum.
          Dr. Felipe de Freitas adorava construir trovas, estrofes breves, geralmente na forma de quadras; nas suas o espírito era predominantemente satírico. 
            Alguns dias passados,  Dr. Felipe desceu à livraria do T.O.Castilho de Almeida, comprou uma folha de cartolina, nela escreveu    alguma coisa e foi procurar o devedor-executado. Lá chegando,  foi até o bode, e com um barbante grosso, pendurou  a cartolina e disse que ao cidadão que fosse até o forum, levando o bode, e se apresentasse ao oficial de justiça, que faria o papel da penhora e mandaria ambos - devedor e bode - de volta para casa.
                 Assim feito, diz a lenda que  o José Ortiz, oficial de justiça encarregado de vistoriar o bem ofertado e lavrar o docu mento da penhora, ao conferir o conjunto da obra, teve um acesso de riso nervoso, e assim desfeito o susto, rancou a cartolina do pescoço do bode e lhe deu fim brevissimo, evitando a propagação pública da quadra que assim discorria:
       
         "Em processo há muito vício
         Mas outro mor não me acode
         O de ver dar-se à penhora
         Um bode para outro bode!
         A lenda informa que Dr Filipe de Freitas teria respondido a processo-crime por desacato à autoridade.
          
       

                
          








     
               

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

paubrasil-joelpgomes.blogspot.com: PARRINHA, INTÉ!!!

paubrasil-joelpgomes.blogspot.com: PARRINHA, INTÉ!!!:                                                                                                               ALCIDES CARRILHO PARR...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

PARRINHA, INTÉ!!!




                                                 
                                                           ALCIDES CARRILHO PARRA, nosso inestimável e bem querido amigo mudou de residência. Está noutra, como dizem os jovens. 
                                                            A Riceles, minha vizinha, avisou Marisa, minha mulher, de sua viagem e mudança. Diacho. Ainda ontem disse à Marisa que hoje pela manhã iria visitar o Parrinha que soube ter deixado o hospital recentemente. Ele foi mais rápido, de maneira que vamos fazer nosso bate-papo em forma de monólogo. A pergunta de sempre, -"Como vai"? já está respondida. Muito bem, de certeza. Quem estimou e amou as crianças como ele estimou, tem léguas e léguas de recompensa nos campos do Senhor. Parrita, ele mesmo nunca deixou de ser totalmente criança.  E elas sempre estiveram à vontade com sua presença.
                                                         Teve duas profissões definidas, que aparentemente não guardavam a mínima ligação. Alfaiate e dono de bar. Ou muito me engano ou Parrinha aprendeu o ofício com seu tio o Barnabé Parra, famoso e muito solicitado oficial alfaiate que ensinou a profissão para muitos outros que se tornaram alfaiates como ele. 
                                                         Conheci os dois lados profissionais do "Cide' como o chamava outro alfaiate o José Rossi, que fazia questão de dizer que a grafia correta de seu nome era "Jose de  Rossi", e este era o nome de sua alfaiataria que ficava no prédio do antigo mercadão municipal, ostentando em sua placa o "De Rossi Alfaiate".

                                                         Claro que  conheci Parrinha muito mais com o umbigo atrás do balcão,e com o meu próprio do outro lado, como assíduo freguês do BAR DO PARRA, na Vila São Joaquim, encostado à Capela de São Bom Jesus, padroeiro da Vila. 
                                                         Gostava - e ainda gosto - de fotografar e por algumas vezes fotografei as presenças comuns no boteco.  Bar que se preza tem de ter um quê de idenfiticação com o  gênero boteco. É ali que o povo frequenta e onde muito se aprende. Até a dependência aos acenos fortíssimos do álcool, como também de exemplos de superação do vício.
                                                          Algumas pessoas se tornaram figurinhas carimbadas do Bar do Parra, como o Zé Rossi,  Otávio, também alfaiate na Vila, o grande e estimado Fidel, em si mesmo uma figuraça, Niquinho, Toninho,  Zé Gollo,  Gonzaga,  Dr. Carlos Cavicciolli,  Ismair do Sesi,  Pinguinha, Severino Gabriel, Luiz Tropardi,  e tantos outros mais que era menos uma freguesia do que uma informal confraria que perdurou até que Parrinha  foi cuidar da saúde, voltando a exercer a profissão primeira, de alfaiate.
                                                       Bom mesmo era nos dias de eleições. Havia a lei seca no dia e a venda de bebida alcoólica era proibida até o dia seguinte. Havia nos fundos do bar uma "tripa" de terrendo que ia até o fundo da construção, devidamente dotada de uma portinhola, como divisória do bar. Os frequentadores assíduos, na base do quieto, entravam um a um, disfarçando de forma mais a denunciar que esconder, a escapada para os fundos, onde os esperava,no dia negro da abstenção proibitória da lei, o Shangri-La,  em forma de brahmas, biritas e das lisas, para regalo dos sedentos eleitores.
                                                     E havia também uma mini mercearia que tinha de tudo um pouco. As coisas mais inusitadas para um boteco, como tomadas de força, lâmpadas,  agulha de coser, linhas, sabonetes, e um montão de pequenos produtos, de forma que numa emergência o Parrinha era o certeiro socorro dos momentos imprevistos. 
                                                     Havia no ambiente a alegria ingênua e pura do convívio desinteressado entre os frequentadores. O bar do Parrinha era o exemplo acabado do dizer de Vinicius de Moraes, segundo o qual justificava sua predileção por bares, com a observação: "Você já viu alguma grande amizade surgida numa padaria?"
   
                                                      O trato com as crianças sempre foi o seu fraco, sua principal qualidade, jamais deixou que qualquer delas saisse do estabelecimento sem um pequeno agrado, mesmo fosse uma singela bala. A São Joaquim não é um bairro abastado, o que Parrinha sabia pelo seu coração. Uma criança satisfeita para ele era um compartilhamento prazeiroso, como se a bala fosse ele mesmo a recebê-la, e não dá-la. 
                                                     Muitas crianças então, como minha filha caçula, cresceram guardando um querer bem sem fim ao Parra, o Parrinha, o Alcides, o "Cide", o Parrita, que tão só pela graça de poder antender aos apelos dos pequenos,está, com a a glória do Senhor, morando  em "Santa Maria", Castelo de Passarinhos. Até quando.