quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

CACÁ CALAZANS OU A BEM-AVENTURANÇA DA BRAHMA E O PURGATÓRIO PILOSO




                                                           IZIDORO CALAZANS DE MELLO, o CACÁ como era conhecido por todo mundo, foi e é extraordinária figura intelectual e humana, de merecido reconhecimento e memória.
                                            Cacá Calazans, apesar do sobrenome, não tinha grau de paretesco com o Rubens de Calazans, pai do Daltro, ambos  casamenteiros oficiais de Maria Chica.
                                           Tinha inteligência e memória privilegiadas. Erudito na arte da poesia, sabia de cor uma infinidade de gêneros poéticos, de várias origens, estilos, correntes, tendências e referências biográficas de seus autores preferidos.
                                           E uma qualidade que todos desejam mas a poucos a providência concede: rapidez de raciocínio e presença de espírito, criando da banalidade de um instante um fato novo, inesperado, novidadeiro, a transformar por completo o acontecimento
                                          Cacá sempre apreciou seus tragos, e conhecia em essência o que se chama por aí de bebidas finas. Tinha conhecimento de causa, e foi sempre apreciador de um bom whisky, particular que o Willian Geraissate para Cacá nunca descuidou. Isso faz parte de uma outra história que será oportunamente contada. 
                                            Mas apreciava, é claro, uma cerveja bem gelada, dela fazendo  sua "pièce de résistence" no andar dos dias.
                                       Fumante inveterado, usava piteiras, um filtro que, em teoria, impedia de o excesso de nicotina ir para os pulmões. Ele sabia que não; entretanto as usava até para que sua determinação em usá-las lograsse convencer a si e circundantes que a coisa funcionava.
                                      Míope, usava alentadas lentes, com armadura que se dizia tartaruga, estatura mais para o baixo que para o alto, portador de um tanquinho apropriado para o depósito das benfazejas brejas. 
                         O vestuário, ao estilo "social" (calças de linho, ou casemira, ou outro tecido "nobre"; camisas de cambraia de linho, ou outro tecido especial) chamava a atenção pelo estilo, sem parecer, nem pernóstico, nem "blasé". Sua figura expendia simplicidade e grandeza de caráter, o que o tornava querido por todos de sua convivência.
                                    O Cacá, durante muitos anos, foi vendedor (viajante) da General Eletric - a GE - que lhe forneceu um Jeep,  estampado com a sua marca registrada, para que fizesse ele suas andanças. 
                                   Apesar de nortista, Cacá era calorento. Então, o cabelo, melhor dizendo, o corte do cabelo, era bem rente ao couro cabeludo, um estilo chamado  corte "americano", ou "escovinha", muito próximo, ou idêntico, aos dos militares da ativa na época. 
                                  E por muitos anos o trinômio estampa, veículo e corte de cabelo identificavam, de longe, a presença de Cacá à volta.
                                 Em canicular tarde de verão, Cacá estaciona o Jeep na Rua Siqueira Campos - hoje Irmãos Chrisóstomo, bem em frente ao Bar Tabu, que até hoje lá permanece.
                                 Esbaforido, pede logo  uma Brahma, casco escuro,  estupidamente gelada, eis que tinha acabado de ser liberto de infamante cadeira, onde ficara sob o jugo de insensível fígaro que o aprisionara sob um avental de algodão cru, no interior do qual transudou até o  último poro do corpo, aguardando que cabelo  cortado e barba feita a navalha, se mostrassem frutos perfeitos colhidos da maestria de seu barbeiro. Enfim, de onde saira com o corte "escovinha" ou "americano", e as bochechas lisinhas  como bumbum de nenê.
                                Instalou-se preguiçosamente numa da mesas esperando o santo refrigério. Vindo de imediato. Com a cerveja, a acompanhá-la qual uma sombra, um conhecido de Cacá com uma garrafa na mão e copo noutra, esparramou-se -  o termo próximo do real - à mesa, a configurar a dura e cruel realidade: acabara de ganhar um emérito chato a pretexto de companhia.
                               Cacá sempre teve paciência de padre em toda e qualquer situação, e não seria um pentelho qualquer que haveria de furtar-lhe do prazer de uma Brahma na tempeatura reclamada. Passou a degustá-la entre a voluptuosidade que o contato do líquido propiciava às suas papilas gustativas, e o instante solene, silencioso, onde o abscondito do ser ascendia às culminâncias das primícias advindas do reino de Baco. Extase e glória. Cumplicidade e abandono totais à imperiosidade subjugadora da vontade ao prazer inominável, produzido pela alquimia das proporções mágicas de malte e lúpulo, que encorpavam o contato da língua com o pálato, a entretecer a sublimidade do instante. 
                                 Instante gozozo do qual foi rude e abruptamente ceifado por um quase berro do "amigo" de mesa.
                              - Cacááá...você cortou o cabelo. Tô vendo que você cortou o cabelo. Cê tá cheirando a lavanda de barbeiro...                             - Acabei de sair do barbeiro e,
                              - Isso não precisa falar que eu tô vendo e cheirando. Por falar em ver, ô Cacááá, por que você quase rapou o côco tudo? Tá parecendo carneiro tosquiado. Por que você raio os parta cortou assim, como campo de aviação de mosquito?
                           - Porque este é o corte que, porra, você, por falar em cabelo, já está quase careca de conhecer. É o escovinha, ou americano, ou qualquer dos dois que você escolher.
                          - Mas, Cacááá, mais, olha, o barbeiro num barberou não? Parece que tirou muito...acho que pode por tirou muito nisso.
                          - Ele fez do jeito que sempre faz e eu peço. Com o calor que faz,a mente fica mais arejada. É isso.
                         - É, mais ficou pouco. É que não tem um espelho aqui na mão, senão eu ia te mostrar que ele rapou quase tudo a sua cabeça. Olha, olha, ô Cacááá, mesmo prá escovinha,ói, o seu barbeiro, ah sim, o seu barbeiro perdeu a mão, você ficou quase pelado...e...então né...
                         Cacá, acertando  o óculos nariz acima,  bem à altura dos olhos, como sempre fazia antes de proferir suas máximas, fixou firmemente os olhos do chato e cravou:
                      -  Meu amigo, vou lhe dizer uma coisa que espero leve em consideração e serventia, não como falta de cortesia ou ofensa:

                    Se cabelo anda faltando, é na minha cabeça, não na sua,o que dispensa seu palavrório e preocupação. Ele crescerá de novo e de novo cortarei do jeito que eu me entenda cortar. Por fim ponha reparo no seguinte, fossem os cabelos tão importantes quanto a sua impertinência  , jamais nasceriam nas beirolas do cú!
                       Dois olhos arregalados, uma saída à francesa promovida pelo amigo, e Cacá voltou ao caminho do nirvana Brahmico, ao que parece o encontrando finalmente. Inté.
                                                   


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