Dr. Enio Soliani criou um quarteto composto de um jurisconsulto que o próprio, dois canditatos ao bacharelato em direito e um mestre-escola. João Carlos Vilas Bôas, o Locão, Joel Pereira Gomes, os acadêmicos da Instituição Toledo de Ensino, e Paulo Roberto Toseto, o Paulinho, mestre-escola.
Paulinho Toseto materializava a constância certeira e infalível na área dos fundos. Toda santa noite lá estava para acompanhar Dr. Enio na programação de tv, e, claro, filar o cafezinho, a aguinha gelada , e vez em quando, uma comidinha preparada pela cozinheira Nilce.
Estando de manhã na redação do "Diário da Noroeste", do batalhador Irineu Sacocchi, onde eu fazia as vezes de redator, um belo dia atendo o telefone com um - alô? Do outro lado ouvi: - Au!
- Quem ai por favor?
- Au! Au!
- Qual a gracinha?
- Au! Au! Au!
- Olha, antes que eu me esqueça por que você não vai tomar bem atrás do...seu...
- Calma. É o Enio. Desde manhã ando muito estranho. Depois de levantado, barbeado, trocado, encontrei pronta a mesa com o café da manhã, que tomei tranquilamente. Quando pronto para sair, quase no portão , lembrei-me do "até logo Nilce". Em vez do cumprimento saiu um Au! Aí, ressabiado, desci ao escritório.
Passando pelo poste da força e luz frente ao Carlos Stroppa, minha perna esquerda ergueu-se como que instintivamente. Com grande esforço, fiz voltar ao normal. Caimbra não era. Descobri que de minha casa até o escritório, descendo em linha reta havia desafiadores sete postes enfileirados, ante os quais a perna sinistra teimosamente se ergueu feito reflexo condicionado.
Liguei para dizer desses estranhos prenúncios. Quando você atendeu, em vez do meu alô, saiu Au! E foram se repetindo os aus-aus até que pude me livrar das incômodas onomatopéias caninas. Porém temo pelos possíveis indiscretos e vexatórios levantamentos involuntários das pernas, ora esquerda, na descida, ora direita, na subida, frente a cada poste. Em resumo, a situação, grávida e cúfica, coloca-me na iminência de consultar, não sei se ventríloquo, ou veterinário. Retorno logo que obter um diagnóstico mais preciso.
Enio Soliani, não sei se pelo gosto que tinha pela ópera, pela literatura universal, pelo teatro onde atuou como diretor quando estudante, quando queria criava momentos, cenas, circunstâncias, entreatos, com verossimilhança tal, que passavam por instantes graves, sérios, circunspectos, quando, em verdade, estava em curso uma deliciosa gozação a explodir no final. E a galera sempre levava a sério. O que para nós que mais o conhecíamos era puro deleite.
Enio Soliani, não sei se pelo gosto que tinha pela ópera, pela literatura universal, pelo teatro onde atuou como diretor quando estudante, quando queria criava momentos, cenas, circunstâncias, entreatos, com verossimilhança tal, que passavam por instantes graves, sérios, circunspectos, quando, em verdade, estava em curso uma deliciosa gozação a explodir no final. E a galera sempre levava a sério. O que para nós que mais o conhecíamos era puro deleite.
Chegando à noite no Dr. Enio, o encontrei e a Paulinho começando uma conversa logo que me acomodei:
- Paulinho, você passou bem o dia?
- Passei doutor. Normal.
- Você não sentiu nenhuma vontade esquisita, estranha, inexplicável?
- Eu... esquisita, estranha. Eehh! doutor, qual é a sua? Não senti nem esquisita, nem estranha, nem vontade nenhuma. Eu heim?!
- Não é o que está pensando senhor Pablo Dominguim. Não estou me referindo a comichões. É ... como eu diria... certa propensão...digamos... canina.
- Doutor nem "comiçhãens" nem cães. O dia foi sossegado. Se mal pergunto, qual a curiosidade do doutor?
- Uma averiguação que venho promovendo sobre algumas atitudes muito relacionadas ao mundo canino. E acabarei encontrando os dados que iluminarão o objeto da dita e perquirida.
- Pô doutor. O senhor tá misterioso e gastante hoje heim? Perquirida... Perquirida.. não rima com persiguida?
- Dominguim, perseguidas ou perquiridas, dizem os doutos, algumas delas, ou mordem, ou assopram, ou cortam, e até quebram côcos. Mas esta é indagação menor, mais afeita a digressões em respeito aos Países Baixos, sem relação com minha atual averiguação. E sei que até amanhã resolverei este enigma sherloquiano. Ou não me chamo Enio Soliani.
Noite seguinte Dr. Enio aguardou minha chegada e foi logo interpelando Paulinho.
- Pablo Dominguim: Sei que você não rejeita uma farta comilança. Isto é certo?
- Tão certo como é bom comer bem e, claro, além de bem, bastante.
- Você Dominguim tem alguma preferência por pratos regionais, cozinha nacional ou internacional?
- Você Dominguim tem alguma preferência por pratos regionais, cozinha nacional ou internacional?
- Doutor não sou lá muito exigente não. Um pernil assado no ponto, um filé à parmegiana ou à california feito pelo Dito do Bar Tabu. Uma feijoada cheia de tranqueira.Uma dobradinha completa. Taí umas comidas feitas prá delicia das nossas vontades e lombrigas. Assim, assim né doutor ?!
- Paulinho, você aprecia arroz carreteiro?
- Claro doutor, Foi o que nós dois jantamos outro dia de noite.
- Anteontem. E não bem um jantar. Foi quase uma ceia. Não foi senhor Dominguim?
- Janta ou ceia qual a diferença?
- O primeiro, amigo Dominguim, geralmente é posto quando completo o anoitecer fazendo soberana a noite. A ceia é realizada quase sempre à desoras, quando o adiantado da hora instiga nossos vazios estomagos, conduzindo, no mais das vezes, a excessos de ordem alimentar. Anteontem o senhor Pablo Dominguim fez o favor de manifestar seu estado famélico já bem passada a hora do jantar.
- E o senhor disse que também estava com fome e nós dois fomos na cozinha ver se tinha alguma coisa feita pela Nilce.
- E o senhor Dominguim foi inspecionar as panelas.
- E lá encontrei uma panelona quase cheia de arroz carreteiro, ainda morninha, chamando para ser papada.
- E o senhor Paulinho me fez abrir uma Coca-Cola de dois litros para acompanhar o regabofe.
- E nós comemos, bebemos e arrepetimos duas vezes o arroz carreteiro da Nilce. Depois o doutor passou um café que tomamos e fomos dormir de pandulho cheio. Só faltou o licor para coroar né doutor?
- Sim, Senhor Paulo Toseto. Paulinho Toseto. Pablo Dominguim. Graças à sua desenfreada gula, nós dois comemos um mui diferenciado arroz carreteiro, o único de nossas vidas. E repetimos.
- E tomamos quase a coca-cola inteira.Que tem de mais nisso?
- Há que, Pablo Dominguim Pantagruel, a Nilce pela manhã me perguntou sobre o paradeiro da panela. Respondi que, orientado por Dom Dominguim, haviamos esquentado e jantado o arroz carreteiro que ela havia preparado, e que o restinho que sobrara estava na panela em baixo da pia de lavar louça. E aí fiquei sabendo até onde sua desenfreada gula me levou, bem como a causa de meus desconexos impulsos de falas e andares de ontem.
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- Doutor Enio...arroz carreteiro... arroz carreteiro ...
- Nilce, eu senti que o arroz estava um pouco papinha. Um pouco molenga Deve ser a receita. Até o tempero estava um pouco diferente.
- Doutor a panela que eu cozinhei não tinha arroz...carreteiro.
- E o que, então, havia nela?
- Doutor a panela que eu cozinhei não tinha arroz...carreteiro.
- E o que, então, havia nela?
- Doutor, o de sempre: arroz refogado, tempero, e uma lata de ração prá cachorro. Igualzinha aquela ali em cima do armário da cozinha.
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- Assim sendo Dom Pablo de Dominguim, vamos ao nascedouro dos fatos conferir a essência da iguaria que sua desmedida glutoneria nos impingiu.
Na cozinha, com a lata de ração canina à destra mão, Dr. Enio, em tom solene, declinou:
Ingredientes: Ração bovina e suina, bofes bovinos, suinos e caprinos, Complexo B, Vitamina D, Vitamina E, EXTRATO ETÉREO Q.S.P.
Ingredientes: Ração bovina e suina, bofes bovinos, suinos e caprinos, Complexo B, Vitamina D, Vitamina E, EXTRATO ETÉREO Q.S.P.
- E agora tenho mui certa a origem de minha prosa au-au e de minhas involuntárias e inevitáveis erguidas de pernas ao passar por cada poste fincado no caminho do escritório.
- Graças à vossa façanha, Dom Plabo de Dominguim - Mestre-Escola natural dos campos de Maria Chica - diplomado em artes arteiras, gustativas, explosivas e quejandos - devo clamar aos céus que meu mais profundo sentir, meu valoroso andar, meu escandido falar, presa se tornaram de diáfano, ignoto e indefinível extrato etéreo canino quase sacrilegamente consumido, por obra e graça da vossa tão soberba quanto portentosa gula.
E tal sucesso se deu tão somente por que Pança sois, sem Sancho serdes.
* Dr. Enio Soliani era grande admirador de Cervantes, em particular do "Dom Quixote de la Mancha" e por mais de vez se inspirou, ora em D. Quixote, ora em Sancho Pança, para as suas brincadeiras. As falas, em alguns pontos dos diálogos Enio/Paulinho buscam, sem pretensão alguma, imitar o estilo do escritor espanhol que Dr. Enio, com maestria, dele se utilizava. Sorte nossa.
- Graças à vossa façanha, Dom Plabo de Dominguim - Mestre-Escola natural dos campos de Maria Chica - diplomado em artes arteiras, gustativas, explosivas e quejandos - devo clamar aos céus que meu mais profundo sentir, meu valoroso andar, meu escandido falar, presa se tornaram de diáfano, ignoto e indefinível extrato etéreo canino quase sacrilegamente consumido, por obra e graça da vossa tão soberba quanto portentosa gula.
E tal sucesso se deu tão somente por que Pança sois, sem Sancho serdes.
* Dr. Enio Soliani era grande admirador de Cervantes, em particular do "Dom Quixote de la Mancha" e por mais de vez se inspirou, ora em D. Quixote, ora em Sancho Pança, para as suas brincadeiras. As falas, em alguns pontos dos diálogos Enio/Paulinho buscam, sem pretensão alguma, imitar o estilo do escritor espanhol que Dr. Enio, com maestria, dele se utilizava. Sorte nossa.